Ansiedade deixa marcas no DNA e pode acelerar o envelhecimento biológico, revela estudo com mais de 14 mil pessoas
Pesquisa publicada na revista Nature Communications identifica alterações epigenéticas associadas à ansiedade em tipos específicos de células sanguíneas e sugere que o transtorno está ligado a um ritmo de envelhecimento até 11% mais rápido

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A ansiedade foi, durante anos, compreendida principalmente como um fenômeno psicológico, marcado por preocupações persistentes, medo excessivo e respostas exacerbadas ao estresse. Agora, um dos maiores estudos epigenéticos já realizados sobre o tema sugere que seus efeitos podem estar gravados profundamente na biologia humana — inclusive no DNA.
Publicado nesta segunda-feira (1º), na revista científica Nature Communications, o trabalho liderado por Sarah J. Ingram, da Texas A&M University, analisou dados de 14.443 participantes e encontrou evidências robustas de que a ansiedade está associada a alterações específicas na metilação do DNA, um mecanismo epigenético capaz de regular a atividade dos genes sem modificar a sequência genética original.
A pesquisa reuniu cientistas da Texas A&M University, da Virginia Commonwealth University e da empresa de biotecnologia TruDiagnostic. Entre os autores estão Sarah J. Ingram, Srimann Ramachandruni, Natalia Carreras-Gallo, Varun B. Dwaraka, Ryan Smith, John M. Hettema, Edwin J.C.G. van den Oord e Shaunna L. Clark, responsável pela coordenação do estudo.
Os resultados apontam não apenas para mudanças moleculares associadas à ansiedade, mas também para uma possível aceleração do envelhecimento biológico.
Uma investigação sem precedentes
A equipe examinou amostras de sangue de 14.443 indivíduos, dos quais 1.817 relataram diagnóstico ou tratamento prévio para ansiedade. O grupo de controle era composto por 12.626 participantes.
Os pesquisadores analisaram mais de 595 mil locais de metilação distribuídos pelo genoma humano. Além do sangue total, utilizaram uma sofisticada técnica de deconvolução epigenômica que permitiu investigar separadamente 12 tipos diferentes de células sanguíneas, incluindo neutrófilos, monócitos, células B, células T e células natural killer.
O diferencial metodológico foi justamente essa abordagem celular detalhada.
Segundo os autores, estudos anteriores avaliavam apenas o sangue como um todo, o que poderia mascarar alterações importantes presentes em populações celulares específicas. O novo trabalho mostrou que cada tipo celular parece contribuir de forma distinta para os mecanismos biológicos da ansiedade.
Marcas biológicas da ansiedade
A análise identificou duas regiões do DNA significativamente associadas à ansiedade quando o sangue total foi considerado. Porém, ao examinar cada tipo celular individualmente, os cientistas encontraram entre 15 e 124 alterações significativas por população celular.
Entre os genes mais relevantes surgiram o FAM171A2, associado à função neuronal e à resposta ao estresse, o VIPAS39, envolvido em processos de transporte celular, e o NCOR1, gene previamente relacionado a comportamentos semelhantes à ansiedade em modelos animais.
“Cada tipo celular apresentou mais associações com ansiedade do que o sangue total”, destacam os pesquisadores na discussão do estudo, argumentando que análises específicas por célula podem revelar mecanismos biológicos que permaneciam ocultos em pesquisas anteriores.
Os resultados também mostraram forte concordância com estudos anteriores sobre ansiedade realizados em outras populações, reforçando a robustez das descobertas.
O elo entre ansiedade e inflamação
Um dos aspectos mais intrigantes da pesquisa foi a identificação de mudanças na composição das células do sistema imunológico.
Pessoas com histórico de ansiedade apresentaram maior proporção de neutrófilos e células T virgens, além de menores níveis de monócitos, células natural killer, eosinófilos e basófilos.
Esse padrão é compatível com uma ativação persistente dos mecanismos biológicos do estresse.
Segundo os autores, a ansiedade pode manter o organismo em um estado semelhante ao de alerta constante, estimulando respostas inflamatórias prolongadas. Estudos anteriores já haviam mostrado que indivíduos ansiosos frequentemente apresentam níveis elevados de marcadores inflamatórios como proteína C-reativa e interleucina-6.
“Os resultados sugerem que a resposta ao estresse pode permanecer ativada de forma persistente na ansiedade”, observam os pesquisadores.
O envelhecimento acelerado
Talvez a descoberta com maior impacto público seja a relação entre ansiedade e envelhecimento biológico.
A equipe utilizou cinco dos principais “relógios epigenéticos” disponíveis atualmente — ferramentas capazes de estimar a idade biológica a partir dos padrões de metilação do DNA.
Os resultados mostraram que indivíduos com ansiedade apresentavam aceleração significativa em dois dos indicadores mais modernos.
No relógio PhenoAge, os participantes com ansiedade exibiam uma aceleração média de 0,07 ano biológico. Já no DunedinPACE, considerado um dos métodos mais avançados para medir a velocidade do envelhecimento, a ansiedade esteve associada a um ritmo de envelhecimento 11% mais rápido.
Os autores observam que a ativação contínua dos sistemas de resposta ao estresse pode afetar processos fundamentais relacionados ao envelhecimento, como função mitocondrial, inflamação crônica e senescência celular.
Um problema global
A relevância dos achados ganha dimensão diante da magnitude da ansiedade no mundo contemporâneo.
Segundo dados citados pelos autores, mais de 515 milhões de adultos vivem atualmente com algum transtorno de ansiedade diagnosticado, incluindo transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, agorafobia e fobias sociais.
Além do sofrimento psicológico, estudos epidemiológicos já indicavam aumento de 5% a 24% no risco de mortalidade por todas as causas entre pessoas com transtornos de ansiedade. A nova pesquisa oferece possíveis explicações biológicas para essa associação.

Apesar da relevância dos resultados, os autores ressaltam que o estudo possui limitações. A maioria dos participantes era branca e relativamente mais favorecida economicamente do que a população geral. Além disso, o diagnóstico de ansiedade foi baseado em autorrelato, e não em entrevistas clínicas formais.
Ainda assim, a dimensão da amostra e a consistência das análises tornam o trabalho um marco na compreensão biológica da ansiedade.
“Expandimos o conhecimento atual sobre as associações entre metilação do DNA e ansiedade para tipos celulares que nunca haviam sido investigados”, concluem os pesquisadores. “Nossos resultados mostram que diferentes células podem contribuir de maneira única para os mecanismos biológicos da ansiedade e ajudam a explicar como o transtorno pode influenciar processos relacionados ao envelhecimento e à saúde geral.”
Mais do que uma emoção passageira, a ansiedade surge, cada vez mais, como uma condição capaz de deixar impressões duradouras na própria arquitetura molecular do organismo humano.
Referência
Ingram, SJ, Ramachandruni, S., Carreras-Gallo, N. et al. Estudo de associação em todo o metiloma no sangue sugere relações específicas do tipo celular entre a metilação do DNA e a ansiedade ao longo da vida. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-73367-8